Dom Sergio diz que católico deve ser mais engajado na vida política da cidade – 23/10/2014

A partir da parceria entre o Correio Braziliense e a Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, Rodrigo Rollemberg (PSB) e Jofran Frejat (PR) responderam, durante cinco dias, a assuntos de interesse do brasiliense, como mobilidade urbana e outros. Na avaliação de dom Sergio da Rocha, arcebispo de Brasília, a Igreja Católica tem a missão de denunciar graves problemas sociais, como a corrupção. Ele lembra o papel da instituição para a aprovação da Lei da Ficha Limpa e o trabalho atual na reforma política. “A Igreja, pelo fato de não ter opção político-partidária, não se opõe à política nem a exclui; ao contrário, reconhece a importância e quer contribuir para a ética na política, oferecendo princípios éticos e critérios à luz do Evangelho”, aponta.
Dom Sergio diz lamentar que o papel da Igreja na sociedade nem sempre seja reconhecido. “Aceitamos o Estado laico, mas rejeitamos uma concepção laicista do Estado, que acaba não reconhecendo a contribuição da Igreja na sociedade, ou pior, que tende a excluir a religião da vida pública, confinando-a à esfera privada, como se a Igreja não fosse socialmente relevante.”

Brasília precisa de mais participação da sociedade civil, mais discussões embasadas para crescer?

A Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília quer ser um espaço permanente de diálogo sobre a realidade sociopolítica de Brasília. Infelizmente, a tendência geral é dar atenção à vida política local e nacional apenas no período eleitoral. É preciso um processo permanente de reflexão sobre as questões sociais. A Comissão quer oferecer a contribuição para a construção da justiça e da paz, à luz da fé cristã, estimulando o interesse e a participação de todos na vida social. O projeto Política com transparência, em parceria com o Correio Braziliense, tem especial importância neste momento eleitoral, favorecendo o conhecimento do posicionamento dos candidatos ao Governo do DF sobre questões fundamentais de interesse dos eleitores.

Como o católico pode participar mais da vida política da cidade e do Brasil?

O católico precisa participar mais da política, para ser “sal da terra” e “luz do mundo”, conforme a palavra de Jesus. Há um primeiro nível de participação, pessoal, espontâneo, isto é, o que cada um pode fazer, exercendo a cidadania de modo responsável e dando testemunho da fé cristã nos diversos ambientes onde vive. Contudo, é muito necessária a participação de modo organizado, comunitário, em conjunto. Pode ser por pastorais sociais, entidades da sociedade civil, sindicatos e conselhos comunitários. A participação pessoal dos cristãos nos partidos políticos é importante, mas eles não são a única forma de participação nos destinos do país. É necessário também acompanhar atentamente a atuação política dos eleitos, pois o papel do eleitor não termina no dia da votação.

Há muitos pastores e representantes de outras igrejas cristãs como candidatos.  Há um desencorajamento dentro da Igreja Católica para a participação de padres e outros religiosos no processo eleitoral?

A postura da Igreja é a de encorajar a participação dos leigos e leigas na política, proibindo a participação dos padres e religiosos na política partidária. Eles devem incentivar os leigos a atuarem nos partidos políticos. A Igreja Católica, não somente em Brasília, mas também em todo o Brasil e no mundo, não faz opção por partido político, nem faz lista de candidatos. A Igreja oferece critérios para orientar os eleitores e para nortear a atuação dos candidatos e eleitos. Quanto aos representantes de outras denominações religiosas, seria importante fazer um levantamento a respeito de quantos foram os candidatos com títulos religiosos (pastor, padre, bispo, irmão…) nestas eleições e quantos foram efetivamente eleitos. Ao menos no DF, parece-me que os eleitos, com alguma exceção, não trazem os títulos. Além disso, seja católico, seja de outra denominação religiosa, não se deve adotar uma postura corporativista. É preciso superar a tendência corporativista na política partidária, seja qual for a conotação. O risco de corporativismo e de defesa de interesses particulares é maior quando alguém é eleito para representar um grupo ou uma instituição, e não o povo.

O papa Francisco tem falado  muito sobre o papel dos leigos na Igreja. Chegou a hora de os católicos leigos também participarem mais politicamente da sociedade?

O papa Francisco tem ressaltado a necessidade da contribuição dos cristãos para construir a sociedade na justiça e na paz, o que exige também atuação política. A política deve ser um campo privilegiado para se viver de modo organizado a caridade cristã. A atuação dos leigos não deve se restringir à vida interna da comunidade eclesial. É muito bom contar com os leigos nos templos, mas precisamos da atuação. O papa tem insistido na necessidade de uma Igreja “em saída”, isto é, que vai ao encontro de todos nos diversos ambientes e situações em que vivem. Os leigos podem fazer isso, de modo especial, porque vivem nos vários espaços da sociedade

Por Leonardo Meireles, do Correio Braziliense

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