Justiça, Igualdade e Paz – um alerta e uma proposta – 17/05/2018

Nosso país está hoje de fato muito dividido. Ele é um dos campeões do mundo em desigualdade social. Não poderiam deixar de surgir movimentos, partidos e governos dispostos a agir efetivamente pela igualdade – ideal de todos os que se declaram democráticos. Mas essa tarefa é gigantesca – política, econômica e cultural. Os que procuraram realizá-la fizeram na verdade ainda muito pouco para que se construa realmente no país uma sociedade justa.

Os riscos aumentam. Os tiros da madrugada de 28 de abril em Curitiba, depois da execução em março de Marielle Franco – com seus autores até agora impunes – e dos assassinatos de tantos lideres sociais pelo Brasil afora, demostram a ousadia crescente dos que querem autoritarismo em vez de democracia e “desejam” a violência – como a das guerras entre traficantes de drogas. Eles são poucos, são ínfimas minorias. Mas sabem que violência provoca violência, escapa ao controle da sociedade e se torna irrefreável. Já houve em nosso país revoltas e ações políticas armadas – o que foi sempre muito doloroso. Nunca no entanto chegamos a viver guerras civis, como as que infelicitam o povo, atualmente, em regiões do mundo em que a disputa por recursos naturais é exacerbada e pode se apoiar em disputas religiosas. Para a satisfação dos fabricantes e vendedores de armas, na lógica anti-humana do sistema econômico dominante. Há quem já nos veja empurrados para essa tragédia.

Cabem portanto alertas. Nosso país está hoje de fato muito dividido. Ele é um dos campeões do mundo em desigualdade social. Não poderiam deixar de surgir movimentos, partidos e governos dispostos a agir efetivamente pela igualdade – ideal de todos os que se declaram democráticos. Mas essa tarefa é gigantesca – política, econômica e cultural. Os que procuraram realizá-la fizeram na verdade ainda muito pouco para que se construa realmente no país uma sociedade justa. Abriram algumas portas para que os pobres começassem a ter sua dignidade de seres humanos respeitada mas deixaram de enfrentar, como seria necessário, o poder do dinheiro – nacional e internacional – e a corrupção de que ele se serve para manter sua dominação. Não questionaram nem se negaram a participar de uma cultura política historicamente a serviço dos privilégios. Mas começaram a tentar inverter – perigosamente para os privilegiados – as tendências anti-igualitárias que estão sendo reforçadas no mundo de hoje. E com isso feriram muitos interesses. Foi o suficiente para se iniciar no país uma guerra de comunicação capaz de levar para a rua milhares de pessoas que se opunham a esses partidos e movimentos assim como os que os defendiam. E fazer explodir uma raiva que parecia artificialmente contida. Muitos começaram a tratar seus adversários políticos como inimigos a serem odiados, e passaram a exprimir – e a alimentar – esse ódio em todos os meios de comunicação e de intercomunicação social existentes.

O que fazer agora para evitar o pior e encontrar saídas? Os que estão filiados a partidos ou são membros de organizações sociais podem atender suas convocações. Mas há uma maioria ainda silenciosa, cujo isolamento a torna espectadora passiva de ações e reações com as quais não concorda. Sem dúvida está chegando a hora de todos nós deixarmos de lado a comodidade e mesmo a timidez e a insegurança e começarmos a conversar uns com os outros: nossos vizinhos, parentes, colegas de trabalho. Num esforço respeitoso e paciente para nos ouvirmos mutuamente, se forem muito diferentes os pontos de vista sobre o que está hoje ocorrendo no Brasil. Temos que tentar viver, pelo menos nos âmbitos restritos de nossos contatos pessoais, os princípios em que a democracia tem que se apoiar para existir: tolerância, respeito à diversidade e diálogo. Eles são os fundamentos para construir o mundo que queremos. Talvez dessa forma consigamos erguer, a partir da base da sociedade – onde nos encontramos – uma barreira à ação dos que preferem impedir nossa convivência pacífica e destruir nossa frágil democracia e quase nação.

Muita gente já não está perdendo a oportunidade de conversas fortuitas, até no ponto de ônibus enquanto ele não chega. Ou em trocas de ideias em seus deslocamentos sempre longos pelas cidades. Mas talvez precisemos ter essas conversas com mais frequência e mais seguidas, e cada vez mais profundas. Há também quem já o faça organizando rodas de conversa, em suas próprias casas ou em outros espaços. As afirmações feitas em textos como este – como em tantos que vem sendo escritos e publicados em redes sociais – nos oferecem muitos temas para esses encontros. Mas podemos também nos lançar diretamente – ajudando-nos mutuamente – na busca da compreensão de todo o significado dos ideais que compartilhamos de Justiça, Igualdade e Paz, procurando saber como eles podem moldar nossas próprias práticas. Começando talvez pelo terceiro, a Paz, tendo em vista a necessidade de urgentemente estancar o aumento do ódio e da violência. Não fiquemos esperando pela iniciativa de outros. É premente multiplicar a ação cidadã.

Chico Whitaker, membro da Comissão Brasileira de Justiça e Paz – 1º de maio de 2018

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